Resumo da história

Resolvi fazer um post definitivo resumindo tudo o que aconteceu desde o dia do exame até hoje. A angiorressonância deu apenas uma pericardite moderada (inflamação com acúmulo de líquido no pericárdio, camada que envolve o coração). No dia seguinte ao exame, recebi alta da UTI, mas eu continuava cansada e com febre. Quatro dias depois da alta (no sábado, 23 de junho de 2007), infartei novamente e desci pra UTI. Dessa vez foi tudo mais tranqüilo. Eu não tive parada e fiquei consciente o tempo todo.

Mas fiquei muito mal no dia seguinte, porque percebi que o tratamento não tinha funcionado. Foi então que entrou outro médico na história, um hematologista. Ele me passou muita confiança e, junto com meus outros médicos (um cardiologista, um infectologista e uma reumatologista), resolveu me dar um medicamento que se mostrou milagroso. Dois dias depois que já não tinha febre. Ficava com no máximo 37,5°, o que é apenas estado febril.

Saí da UTI no dia 28 de junho, quinta-feira. Nos outros dias que passei no hospital, alternava momentos de muita felicidade com momentos de extrema insegurança. A essa altura, eu já não conseguia andar direito. Perdi toda a minha massa muscular, além da debilidade cardíaca, mas fiz fisioterapia e contava com o apoio dos médicos e de toda a equipe de enfermagem, que eu adorava (e ainda adoro!). No dia 07/07/2007, um sábado, finalmente deixei o hospital.

As coisas não mudaram muito, mas estar em um ambiente familiar e que não tinha doenças por todo lado com certeza me faziam sentir melhor. Eu tive algumas crises de pânico, mas continuava com a psicóloga e, à medida que o tempo passava, fui ganhando confiança e ficando boa dessas coisas. Em outubro, mais ou menos, ela me deu alta e eu só voltei lá uma vez desde então.

No final de setembro, inciei a reabilitação cardíaca na Clínica do Exercício, no Instituto do Coração aqui de Natal. É uma academia normal, mas a assistência é muito melhor. Eles verificam a pressão, acompanham os batimentos cardíacos o tempo inteiro e são bastante atenciosos. Eu estou lá até hoje e, no horário que eu geralmente vou, tem cerca de sete, oito pessoas, para três e até quatro instrutores.

Hoje, eu estou ótima. Meus exames estão todos normais e meus remédios diminuíram de nove para três. Nem corticóide eu tomo mais. Apenas um para o controle do Lúpus e dois para o meu problema de coagulação: um anticoagulante e um antiagregante.

Apesar de já estar bem há algum tempo, só em julho voltei a sair de casa nos fins de semana com meus amigos. Antes os encontros eram muito esporádicos. Eu ficava o tempo inteiro dentro de casa e minhas sextas-feiras eram em frente ao computador. Sempre. Não sei como eu agüentava, mas ainda bem que agüentava, né! =P

É claro que eu poderia ter detalhado muito mais tudo isso, mas não estou com vontade de lembrar. Espero ter sanado todas as dúvidas de vocês, leitores. Se não, sintam-se à vontade para perguntar nos comentários. Até mais!

Aviso

Eu tenho feito os textos para o blog sem a mínima vontade. Por isso, os últimos ficaram péssimos e pobres em detalhes. Hoje eu até ia escrever sobre o exame, mas decidi que é melhor não. Portanto, peço desculpas, mas só vou voltar a postar quando achar que vai ficar bom. Não adianta ficar colocando textos pra depois perceber que esqueci isso ou aquilo.

Até a volta.

Novo tratamento

Depois de tudo que aconteceu comigo, os médicos realmente se convenceram de que eu tinha Lúpus, apesar de os exames ainda estarem confusos. E como o tratamento simples com corticóide passou longe de dar resultado, minha reumatologista partiu para o ataque. Primeiro, eu fiz uma pulsoterapia com corticóides, que consiste na administração de altas doses do medicamento via endovenosa em um período de três a cinco dias (acho que no meu caso foram três). No quarto dia, fui submetida a uma pulsoterapia com ciclofosfamida, um tipo de quimioterapia um pouco mais branda.

Mesmo tendo tomado Dramin antes de receber o medicamento e apesar da dose mais baixa, nada impediu que eu ficasse enjoada no dia seguinte. Eu amanheci com um embrulho no estômago e não consegui comer nada além de pão. Passei o dia me sentindo mal e chorando. Foi então que o tempo começou a se arrastar mais ainda. Minha cama ficava em frente a um relógio e eu passava quase o tempo inteiro encarando-o. Sei que isso só piora tudo, mas eu não conseguia me concentrar em outras coisas.

Eu ficaria na UTI até a segunda-feira, 18 de junho (eu cheguei lá no domingo, dia 10), pois iria fazer uma angiorressonância magnética e o único médico que sabia utilizar a máquina estava em Brasília dando um curso sobre o mesmo equipamento (pouquíssimas pessoas no Brasil sabem mexer nele). A espera foi horrível. Eu contava os dias, as horas, os minutos e os segundos. Além disso, nesse meio tempo cogitaram fazer outros exames, como estudo eletrofisiológico e umas coisas que eu nem sei o que são. Acharam até que eu tinha uma tal de Síndrome de Brugada (uma arritmia hereditária que predispõe a arritmias ventriculares que podem ser fatais).

Hoje eu penso nisso e acho até ridículo. Eu estava com o coração todo inflamado, tive uma fortíssima crise de Raynaud, minhas artérias estavam tendo espasmos... Era mais do que normal que um coágulo se formasse, provocando a parada cardíaca, mesmo que eles ainda não soubessem que eu tinha a doença que descobriram depois. Deviam haver razões para que pensassem dessa forma, mas na minha cabeça é tudo muito claro.

Por precisar esperar muito, eu acabava conversando bastante com os enfermeiros, como mencionei no post anterior, e foi um deles que acabou me revelando que eu havia tido uma parada. Até então, todos estavam tentando me esconder, afirmando que tivera apenas uma arritmia. Uma amiga da família, que era estudante de medicina (formou-se esse ano), foi me visitar e acabou deixando escapar, mas eu não acreditei, achando que ela não estava a par dos acontecimentos. Só me convenci mesmo quando o enfermeiro me relatou o ocorrido em detalhes.

Na hora, fiquei chocada. Chorei muito e levei dias para digerir a notícia. Eu escondi da minha família que sabia, mas perguntei à médica: "Eu vou ter outra parada?". Lógico que eu queria ouvir um não bem sonoro, mas ela respondeu, com seu jeito sempre carinhoso: "Nós esperamos que não". Esse nós esperamos não foi muito agradável e eu continuei martelando na minha cabeça, tentando entender como uma pessoa de 19 anos podia ter uma parada cardíaca.

P.S.: Gostaria de agradecer novamente a todos que estão comentando. Não vou citar nomes para não correr o risco de esquecer alguém. =]

Detalhes da UTI

Meu segundo dia de UTI foi horrível. A paciência do primeiro se foi e eu implorei, chorando desesperadamente, para que minha médica me tirasse de lá. É óbvio que ela não atendeu ao meu pedido: "Samantha, eu já fiz isso por um paciente e me arrependi depois. Não vou fazer a mesma coisa com você". Eu insisti que estava bem e que queria sair, mas nada adiantou.

O que me ajudava era o fato de eu ser "consciente e orientada". Uma das poucas, se não a única, que permanecia acordada o tempo inteiro. Em meio à minha enorme carência, eu puxava conversa com quem aparecesse e acabei ficando amiga de quase todos os enfermeiros, que eram extremamente carinhosos e faziam de tudo pra me deixar pra cima. Eu poderia citar o nome de todos eles (inclusive daquele que estava comigo no dia do ultra-som abdominal), mas, como fiz até agora, prefiro não expor as pessoas que participaram de toda essa história.

As visitas eram extremamente importantes. Todos os dias minha mãe me dava o almoço e o jantar (lembrem-se que eu estava com mãos e pés atados, ou seja, não tinha condições de fazer essas simples atividades sozinha). E, pra vocês terem idéia, só o ato de comer me dava um enorme cansaço. Meu coração sempre disparava. No café-da-manhã, horário em que eu não podia receber ninguém, quem me dava de comer era algum enfermeiro. Sempre tem um para cada paciente, mas eles mudam com o passar dos dias. Eu aproveitava esses momentos para conversar.

O banho, que no primeiro dia foi no leito, passou a ser no banheiro. Eles tiravam minhas ataduras, me colocavam naquelas cadeiras que parecem sanitários ambulantes e me levavam para o local do banho. Não era longe, mas eu não podia andar. O pior de tudo é que, para evitar a proliferação de bactérias, o ar condicionado da UTI é extremamente frio. Pra agravar a situação, eu tinha febre o tempo inteiro. Ou seja, por mais quente que fosse a água, eu sempre saía do banho batendo o queixo.

Outra coisa que vale a pena citar é que todas os pacientes de UTI usam fralda. Isso quer dizer que todos fazem suas necessidades fisiológicas na cama, como se fossem bebês, na frente de todo mundo. Como o trabalho é puxado, os enfermeiros não têm disponibilidade para ficar levando e trazendo a pessoa do banheiro para o leito. Comigo não foi diferente, mas ainda bem que, quando você está doente, não quer saber de mais nada além de ficar bom. Por isso, eu perdi totalmente a vergonha. Ou eu fazia tudo ou morria enturida.

Mesmo quando estavam trocando minhas fraldas eu ficava conversando como se aquela situação fosse a mais normal do mundo. Pensando hoje, vejo como era constrangedora. Eu, 19 anos, sendo trocada e limpa como se tivesse cinco, época em que eu ia ao banheiro e gritava "Mãããe, acabeeeei!". É até meio vergonhoso contar isso, mas considero uma passagem muito importante dos acontecimentos, até porque minha irmã sempre perguntava como eu agüentava (e eu não entendia por que o espanto! Hahaha!).

Dor nas costas e isquemia

Eu não lembro de quase nada que aconteceu no meu primeiro dia de UTI. Só me recordo de algumas visitas que recebi e de perguntar ao médico se podia sentar na poltrona que estava ao lado da minha cama (pedido recusado com um "Hoje não"). Mas, na verdade, na verdade, eu não estou com cabeça pra escrever hoje. Cheguei de viagem ontem pela madrugada e adiei o post em um dia, achando que já estaria bem pra continuar meus relatos, mas amanheci novamente sem vontade. De qualquer forma, vamos lá.

Eu acho que sentia muita dor nas costas e reclamava o tempo inteiro da cama da UTI. Por isso, meus pais providenciaram um colchão de ar, que na verdade era tão ruim quanto ou pior que o do hospital, o que fez com que, a partir do segundo dia, eu preferisse dormir na poltrona. Não melhorou muito, é verdade, minhas noites eram pesadelos, mas tenho certeza que podia ter sido pior.

Eu não parava de sonhar que estava andando em dunas. Lógico que isso acontecia porque, em decorrência dos problemas cardíacos, eu passava o tempo inteiro muito cansada, mesmo deitada, e isso se refletia nos sonhos, que também eram sempre extremamente cansativos. Ou seja, eu dormia, mas continuava cansada, e, quando acordava, estava toda doída por dormir na poltrona com a cabeça pendurada.

Ah, lembrei de uma coisa importantíssima que aconteceu no primeiro dia. Na hora do banho (eu tomei no leito), os enfermeiros tiraram as ataduras de meus pés e mãos e eu pude ver o que eram aquelas coisas geladas lá dentro. Meu dedão do pé direito e o dedo indicador da mão direita estavam completamente pretos por causa da crise de Raynaud que eu tive. Eles ficaram tanto tempo sem circulação que começaram a necrosar. Nas palavras do médico angiovascular que foi me ver: cianose fixa.

Cianose fixa é definida como sendo a coloração cianótica das extremidades, que não se altera com a mudança de posição ou elevação devido à isquemia, normalmente não reversível, caracterizando a pré-gangrena.

Pré-gangrena. Quando ele falou cianose fixa na minha frente, eu não sabia o que queria dizer, e na verdade só soube mesmo hoje quando procurei a definição do termo. Quando vi aqueles dedos pretos, insensíveis e gelados, perguntei de cara: "Eu vou perder meus dedos?". O médico disse: "Não. Talvez só a pontinha". Só a pontinha? Ok. Não me importei.

E por hoje eu acho que tá bom. Pra quem não queria escrever nada, até que escrevi muito. Até amanhã!

Outras informações

Chegou a hora de dar uma pausa nos meus relatos para contar o que aconteceu quando eu não estava presente ou consciente. Embora eu nunca tenha perguntado, as pessoas sempre deixavam escapar algumas coisas, como o fato da pressão do meu pai, que é hipertenso, ter chegado a 18 por 9 de tanto que ele chorou e se desesperou. A outra coisa que preciso contar diz respeito ao que aconteceu depois que eu sofri a parada e que me sedaram.

Um cardiologista especializado em arritmia foi chamado para me avaliar. Logo, chegou à conclusão de que eu precisava de um cateterismo.

O cateterismo cardíaco é um procedimento médico usado para diagnóstico e tratamento de certas condições cardíacas. Um tubo longo, fino e flexível, chamado cateter, é colocado dentro de um vaso sanguíneo no braço, coxa (o meu caso) ou pescoço, e levado até o coração. Através do cateter os médicos podem fazer diagnósticos e tratamentos do coração. Fonte.

Dois outros médicos foram solicitados para realizar o procedimento. Até hoje eu não sei se me levaram para a sala cirúrgica, de pequenas cirurgias ou se fizeram na UTI mesmo, mas isso não é realmente importante. Meu pai até ficou meio relutante em permitir o exame, porque é muito invasivo e envolve vários riscos, mas era o jeito, né! E o que encontraram não foi nada bom.

Não adianta transcrever o resultado já que ninguém entenderia nada, mas havia um número enorme de artérias com "ectasia e irregularidades". Aliás, eu nem sabia que nós tínhamos a quantidade de artérias que o exame mostrou, mas enfim. Nas palavra da minha mãe, meu coração estava "todo estragado" (lembrem-se que um dia antes eu fiz um eco e ele estava em perfeito estado de funcionamento), e isso quer dizer que minha vasculite tinha atingido as artérias cardíacas, ou seja, eu estava com vasculite coronariana.

As artérias estavam, em bom português, inflamadas e, por isso, inchadas. Com a crise de Raynaud, também começaram a ter espasmos, ou seja, começaram a se fechar, causando a interrupção da passagem de sangue e provocando a formação de um coágulo, que foi o motivo da parada. Mas esse coágulo não se formou apenas por isso. Mais tarde, descobririam que eu desenvolvera uma outra doença em decorrência do Lúpus.

Basicamente, foi isso. Se há mais alguma coisa importante, eu não lembro ou não me contaram. No próximo post, voltarei à ordem cronológica dos acontecimentos.

P.S.: Vou ficar uma semana sem postar. Estou indo para Brasília passar a semana com minhas primas. Até a volta!

Um coração em apuros - Parte II

É claro que eu não lembro de nada depois da parada, mas algumas coisas me foram relatadas pela enfermeira que estava comigo no momento e por outro que participou do processo de reanimação. De acordo com a mulher, assim que eu desmaiei, ela correu para chamar o médico, cujo sobrenome é, curiosamente, Angel (ele é argentino).

"Urgência no 2!". Um enfermeiro correu e, junto com o Dr. Angel, ficou massageando meu peito na tentativa de reanimar meu coração. Segundo ele, esse é o procedimento padrão. A tentativa foi frustrada e eles precisaram me desfibrilar. Eu não apenas fui reanimada como também acordei. Isso, pra mim, é estranho. Eu sempre achei que, após uma PCR (parada cardiorrespiratória), a pessoa continuava desmaiada. Minha médica até disse que nunca tinha visto alguém despertar tão rápido.

Eu, incrivelmente, lembro do que aconteceu assim que acordei. A médica se aproximou e disse: "Que susto!". Sem entender, eu perguntei: "O que aconteceu?". "Sabe o que é um pirepaque? Você teve um pirepaque!". Lógico que ela estava tentando não me assustar, e por algum tempo eu realmente não soube o que tinha acontecido de fato.

Depois desse pequeno diálogo, muito provavelmente eu fui sedada. Não lembro de absolutamente nada. Horas mais tarde, acordei totalmente grogue e exausta. Lembro que havia uma pessoa na minha frente (lembro também quem ela é) e eu sentia uma dificuldade enorme pra falar. A boca pesava e a língua não obedecia. A pessoa começou a se afastar e apareceram outras para aparentemente me conter. Depois eu ficaria sabendo que tentei tirar todos os eletrodos, ataduras e fios que estavam ligados a mim. Acho que fui sedada de novo nesse momento.

Só acordei mesmo durante a madrugada. Tentei me mexer, mas percebi que meus pés e minhas mãos estavam amarrados nas grades da cama. Chamei o enfermeiro e questionei o motivo da prisão. Foi então que ele falou da minha rebeldia grogue. Eu pedi que ele desamarrasse e prometi não tirar nada do lugar, e obedeci, claro.

Eu estava com mãos e pés totalmente envoltos em quilos de ataduras. Era a tentativa de aquecer meus membros. Mesmo assim, eu sentia que havia algo gelado lá dentro, e só depois eu veria o que era. Adormeci novamente para pouco tempo depois despertar com alguém enfiando uma agulha no meu braço. E, como eu precisava ficar sozinha, esse foi apenas o primeiro dos muitos exames de sangue que eu fiz sem os beliscões do meu pai.

Na UTI é assim: todo dia um exame, no mínimo. Lá no São Lucas, os técnicos do laboratório começavam a ronda às 4h da manhã e, lógico, pela unidade onde eu me encontrava, que é a mais importante. A pessoa que fez esse exame em mim foi aquela com quem antipatizei no dia do internamento. Ela ainda faria muitos outros e ficaria íntima das minhas veias sofridas (eu já estava toda roxa de tanto ser furada) e trabalhosas, tornando-se uma das poucas pessoas que conseguia pegá-las e dona de minha gratidão pelo carinho que me devotou nesses pequenos momentos.

Um coração em apuros - Parte I

O médico da UTI chegou ao quarto rapidamente. Um homem enorme com uma expressão tão serena que me conquistou imediatamente. Ele pediu que levassem a máquina do eletrocardiograma para me avaliar. A máquina chegou logo, mas, absurdamente, estava sem papel. Lá foi a enfermeira correr atrás, ainda bem que ela foi rápida.

A essa altura, já tinham umas oito pessoas dentro do quarto: meu infectologista, minha reumatologista, o médico da UTI, meus pais e umas três enfermeiras. O exame foi feito e eles perceberam a loucura que estava acontecendo com meu coração. Minha médica, muito carinhosa, veio dizer: "Samantha, nós vamos te levar pra um lugar onde vão cuidar melhor de você". Ao que prontamente respondi: "E por que não levaram ainda?!".

Eu ainda me contorcia de dor, mas resolvi agüentar calada, embora aquele esforço fosse quase insuportável. Ficar gritando e chorando compulsivamente só pioraria as coisas. Trouxeram uma maca, mas o oxigênio não encaixou no suporte e foi preciso trocá-la. Esses minutos perdidos poderiam ter sido fatais pra mim, mas algo, ou alguém, estava conspirando a meu favor, por incrível que possa parecer em uma situação dessa.

Começaram a me levar pelo corredor, e eu só lembro do beijo que meu irmão, que havia acabado de chegar, me deu na testa, dizendo "Vai dar tudo certo". Ah, lembro também de uma picada no dedo, que depois eu descobriria ser a medição da glicose. Não lembro, porém, da descida no elevador nem da chegada na UTI. Só depois de uma conversa com uma enfermeira recordei-me do que aconteceu assim que cheguei.

Eu fui colocada no leito dois e os médicos ficaram conversando do lado de fora. Ainda morrendo de dor por causa da mão, chamei a enfermeira. "Cadê o remédio pra dor?". "O médico já mandou trazer", ela respondeu. Mas como assim "já mandou trazer?". nada. Eu tava morrendo de dor e ela vem com essa história de já. "Eu quero o remédio agora!". E foi então que eu tive uma parada cardíaca.

P.S.: Pela primeira vez, eu chorei escrevendo um post.

Ecocardiograma e crise

Depois da ultra abdominal, eu fiquei realmente traqüila. Tanto é que, quando soube que faria um ecocardiograma, nem me preocupei. E o médico da vez foi bastante simpático. Não parou de falar um segundo. "Tá vendo as cavidades? Aqui é seu átrio esquerdo, aqui é o ventrículo blábláblá". Segundo ele, meu coração estava em perfeitas condições de funcionamento.

Quando voltei ao quarto, aconteceu algo muito engraçado. Meu pai entrou antes e, com a mão que estava segurando meu sutiã, fez aquele gesto com o polegar pra cima enquanto dizia: "O coração de Sassá, ó!". A intenção do negócio era informar que estava tudo ok, mas minha mãe, em um momento de loucura, pensou que ele estava com meu coração na mão (literalmente!) e começou a chorar. Nós rimos dela o resto do dia. Eu ainda fui questionada se havia ficado com medo. "Por quê? Eu não tenho nada no coração!".

Estamos, pelo que me recordo, no dia 9 de junho de 2007. Eu não lembro de mais nada importante que aconteceu. Acho até que nem aconteceu. Era apenas mais um dia de espera e de incerteza. Aquela minha nova rotina de sempre. Mas o dia 10 compensaria essa monotonia.

Eu acordei com uma dor no tórax e minha mãe ficou massageando durante um tempo. Tomei café normalmente e, mais ou menos às oito horas, senti vontade de ir ao banheiro. O dia estava frio e chuvoso, mas eu já tinha até esquecido que tinha Raynaud. Fui ao banheiro descalça e sem luvas. Desgraça. Minhas duas mãos ficaram brancas e insensíveis imediatamente. E dessa vez meus pés também foram acometidos pela síndrome.

Eu não me desesperei. Apenas saí do banheiro e peguei alguns lençóis para aquecer meus membros. Não adiantou. Eu comecei a sentir uma dor lancinante, principalmente na mão direita. Parecia que alguém tinha colocado-a dentro de uma panela com água fervendo. Queimava insuportavelmente. Eu comecei a gritar e a chorar de dor.

Nesse meio tempo, um técnico do Centro de Patologia chegou no quarto para fazer um exame de sangue em mim, mas, naquele estado, eu não tinha a menor condição de fazer nada, e ficava repetindo, em meio ao choro: "Vai fazer o exame com que sangue?", me referindo, claro, ao fato de estar com isquemia. Meus pais massageavam meus braços tentando inutilmente fazer com que a circulação voltasse às mãos. E nada.

Minha reumatologista chegou logo em seguida. Eu lembro da expressão de compaixão em seu rosto. Ela pediu que eu me sentasse e perguntou se meu peito estava doendo. Eu disse que estava queimando e que sentia dificuldade para respirar. Me ajudaram a passar para a cama (eu estava sentada no sofá do quarto) e a médica mandou que chamassem o médico da UTI.

Minha mão continuava queimando horrivelmente, sem contar que eu não sentia a outra nem os dois pés, eu não conseguia respirar e meu peito doía. E esse era apenas o início do pior dia da minha vida.

P.S.: Só para ilustrar: quando eu digo que a minha mão ficou branca, eu quero dizer que ela ficou realmente branca. E não foram só os dedos.

Ultra abdominal

A ultra-sonografia abdominal, um dos exames prescritos pelos médicos, foi um Deus nos acuda. Logo que soube que faria, me desesperei. "É agora que vão achar meu tumor intestinal e eu não saio desse hospital nem tão cedo". Foi minha tia quem me levou para a sala do exame. A fila de espera tinha uma pessoa na minha frente, além da que já estava lá dentro sendo examinada. Essa pessoa era um enfermeiro da UTI do hospital, que mais tarde eu conheceria.

Enquanto esperava, comecei a chorar muito. Minha tia, na tentativa de me acalmar, só me deixava mais nervosa. Meu pai chegou ao local e, também inutilmente, ficou tentando me consolar. Eu estava com muito, muito, muito medo. Às vezes a dúvida é melhor do que a certeza. Ou pelo menos na minha cabeça, naquele momento, era. Em minha insanidade, achei que, se realmente tivesse câncer, já fazia muito tempo e seria irreversível. Minha vida se tornaria uma espera pela morte e eu não estava preparada para aquilo. Ninguém nunca está, na verdade.

E lá fui eu. Deitei na cama chorando. O médico começou o exame, e eu chorando. Ele apertava aqui, ali, mexia naqueles botões, e eu chorando. Ele fazia os screenshots, e eu continuava chorando. O desgraçado não deu um piu! Mesmo vendo meu desespero, me deixou na angústia, achando que aquele silêncio era sinônimo de algo errado. A cara que ele fazia era totalmente desprovida de sentimentos. Nem quando eu saí da sala, ainda chorando, obviamente, ele falou alguma coisa. Foi preciso minha tia voltar e perguntar se havia algo errado para ele responder, com uma tranqüilidade irritante, que "estava tudo bem".

Eu fiquei extremamente aliviada e feliz, mas toda a angústia que passei poderia ter sido evitada. Médicos não podem ser tão frios! Eu sei que é difícil ser caloroso, se envolver com os pacientes se você corre o risco de sofrer com uma eventual perda, mas é preciso haver um meio termo. Uma pessoa hospitalizada, em uma situação delicada, precisa confiar e gostar do médico e, acima de tudo, precisa de carinho. Esse médico, espeficiamente, não precisava ser assim, afinal, ele só estava fazendo uma ultra, mas não custava nada ser um pouco simpático!

O resultado do exame mostrou que meu fígado, em função do quadro inflamatório, estava um pouco crescido e com uma certa quantidade de líquido. Nada assustador. Além disso, revelou uma coisa curiosa. Eu tenho dois baços! Quer dizer, um deles é apenas um baço acessório, como um nódulo de tecido ligado ao órgão principal. Eu nunca perguntei aos médicos, mas esse é provavelmente o motivo de eu sentir aquelas dores do lado esquerdo do abdômen que me fizeram pensar, por alguns anos, que eu tinha câncer de intestino. Seria cômico se não fosse trágico! Ou o contrário? =P

Os exames estavam indo bem. No dia seguinte, foi a vez do ecocardiograma.